quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Por que a mulher quer casar

A mulher brasileira não sabe ser Leila Diniz

Mirian Goldenberg, doutora em antropologia social, é autora, entre outros, de "De perto ninguém é normal" e "Os novos desejos".

Por que a mulher brasileira, mesmo a mais moderna, ainda faz questão de casar?
MG- Porque o Brasil não é tão moderno quanto a gente pensa. Em países como a Alemanha e a França, a opção de não querer casar é culturalmente aceita. No Brasil, por mais moderninha, a mulher se sente desvalorizada se não tiver um homem ao lado.

Isso depende de educação e classe social?
MG- É cultural. Na cultura brasileira, o valor da mulher é dado pelo fato de ela ser esposa e mãe. A mulher é mais valorizada quando tem um supernamorado ou um supermarido. Vivemos em uma cultura que diz, às vezes nas entrelinhas, que a mulher solteira é uma fracassada.

Liberdade e segurança são conceitos que não se misturam?
MG- Sim. A mulher sente falta de cumplicidade e de companheirismo, mas quer mais liberdade e individualidade. Falta de sensibilidade e de segurança convivem com a falta de dinheiro e de confiança. Que homem pode suprir todas essas demandas femininas? Segundo o IBGE, o número de mulheres que pede o divórcio é bem maior que o de homens. As mulheres vivem insatisfeitas.

De onde vem a síndrome do príncipe encantado moderno?
MG- Homens foram socializados com futebol e jogos competitivos. As brasileiras foram socializadas, antes, com novelas e romances, e agora com Sex and the City. Foram criadas para acreditar em conto de fadas. Por isso querem homens que não usem pochete e saibam quem foi Antonio Gramsci.

É possível romper com esse padrão?
MG- É difícil. Tudo conspira para que as mulheres cresçam achando que seu valor está no homem que as acompanha, e que esse homem tem que ser superior, uma espécie de troféu. As mulheres têm de parar de querer ter ao lado Chicos Buarques para serem exibidos.

Tá faltando homem na praça?
MG- Essa história é tão clichê quanto aquele papo de que a mulher independente assusta. E quem cria esses clichês são as mulheres. As mulheres foram criadas para serem chatas e reclamonas. É cultural. A mulher precisa parar de se preocupar com o olhar do outro. Essa era a grande qualidade, por exemplo, de uma Leila Diniz. O problema é que, até hoje, a mulher brasileira não sabe ser Leila Diniz.

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